quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Religiões misteriosas no Ceará: Candomblé



Ao entrar no terreiro ou roça da Casa do Pai Shell fui como uma simples abiã, que significa está ali apenas para conhecer de perto a religião. A limpeza e a organização do local não é uma simples questão de higiene. Está relacionada à limpeza espiritual, o local como um todo cheirava a ervas e dava uma sensação de está “em casa”. Para contrastar com as grandes catedrais, a casa em que assisti a festa de Xangô (deus da justiça) é uma morada muito simples. Não dava pra imaginar que nos fundos daquela casa poderíamos sentir uma energia tão forte.

Esperando para conhecer Pai Shell já era possível sentir sua presença, quando ele chegou vi que ele era muito diferente do que imaginava, mas em um aspecto ele não decepcionou, a confiança das suas palavras. Ele explica que tudo na religião do candomblé veio do Keto (religião africana) histórias e tradições trazidas pelas rainhas africanas feitas escravas no Brasil. “Tudo foi transmitido pela oralidade de pai para filho, de geração para geração. A religiosidade africana resiste pela força dos orixás, espíritos da natureza que são o elo entre homens na terra e o grande Olorun, Deus”.

A Festa de Xangô

“Tá na hora de começar nossa batucada, tá tudo atrasado”, diz Pai Shell para chamar a atenção dos presentes e dar início à festa. Já passa das 21h e estou no barracão da Casa de Candomblé Ilegibá Axé Possun Aziri (casa de orações, força e raiz de criação).

O eletrizante som dos atabaques (tambores artesanais que servem para conversar com os deuses) se inicia. O corpo se arrepia, fica inquieto, é tomado por uma vontade de dançar e acompanhar as músicas cantadas na língua africana iorubá.

Os rodantes ficam dançando no centro do barracão e é chegado o momento em que os orixás baixam em seus corpos. É difícil acreditar, mas o corpo de quem recebe o santo muda de fisionomia. Como Xangô é um orixá homem, o rosto delicado e sorridente de Mãe Lu se transfigura, adquire uma fisionomia masculina e um semblante fechado. Momentos depois todos recebem seus orixás e é possível notar mudança na cor dos olhos e na voz de cada um deles.

Olhando aqueles que vão assistir a festa é possível ver gente de diversas classes sociais, professores universitários, dependentes químicos recuperados etc. Cheguei à conclusão que o candomblé é um ritual de dança e aceitação, não importa classe, cor, orientação sexual, nem mesmo o credo, pois, segundo Pai Shell, “as pessoas precisam entender que não existe religião certa, o importante é ter Deus no coração”.


Fotos da Festa


por Bárbara Guerra e João Paulo Correia

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