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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

O verdadeiro som é o do vinil


Nem MP3 player, nem Ipod, o que eles desejam é escutar o velho bolachão. Na contramão das inovações tecnológicas, que mudam a cada dia o nosso modo de escutar música, existe em Fortaleza um grupo, ainda disperso, de admiradores dos discos de vinil que considera seu som o mais verdadeiro de todos.

O Long Play, também chamado de disco de vinil ou bolachão, foi uma mídia criada no inicio dos anos 1950 para a reprodução musical através de um toca-discos, visando substituir a utilização dos discos de cera, de 78 rotações. No Brasil, a substituição dos discos de vinil pelo CD iniciou no começo da década de 90.

Como os bolachões resistem numa sociedade que exige cada vez mais recursos rápidos, compactos e portáteis? O orientador administrativo Carlos Magno, que deixou de lado sua coleção no auge da invenção do CD, tenta uma explicação. “Escutei uma frase interessante certa vez; 'hoje temos mais músicas arquivadas e cada vez ouvimos menos músicas'. Então ascendeu uma luz e eu percebi que o disco de vinil você escuta ele todo. Pega o encarte, abre a capa, limpa o disco”, disse o colecionador, que é DJ do Órbita Bar nas horas vagas.

Leontino Eugênio (foto), proprietário da loja Botija Discos, especializada na venda de LP's e CD's, considerou que essa tendência pode ser uma resposta a virtualidade da vida moderna. “É muito estranho... Tudo muito informatizado, virtual demais. Acho que o vinil torna as pessoas mais humanas. O vinil faz com que as pessoas 'vejam a música'. Você ouve o disco olhando para a capa, porque a capa faz parte do conceito do álbum. Você baixa um MP3, muitas vezes você não tem o nome da música, nem a capa. Na minha concepção o disco é um objeto audiovisual. Muitos vem com um poster, capa dupla ou tripla”.

Aficionado pelos bolachões, Leontino considera o som dos LP's o mais verdadeiro. “Se você tiver um bom equipamento de som e um bom vinil, o som do LP muitas vezes é melhor do que o CD. Existem CD's bem gravados e mal gravados. Acho que tudo é válido, agora o vinil é que é o verdadeiro som, são os discos gravados na matriz analógica”.

Novos artistas também estão aderindo a utilização do vinil, por considerar um produto mais artesanal e que agrega valor ao produto lançado. A exemplo disso temos o novo disco da Wanessa Camargo, chamado DNA, que teve um número restrito de copias lançadas em vinil para divulgação do álbum.
Os irmãos Victor (foto) e Fernando Fontenele, ambos estudantes de música da Universidade Estadual do Ceará, herdaram da família os discos e mantém até hoje o hábito de escutar os bolachões. "Mesmo depois que veio o CD e muita gente deixou de escutar vinil, a gente continuou curtindo. Recebemos muitos disco dos tios, do meu pai e minha mãe e também um toca discos. Temos desde de Raul Seixas, Chico Buarque, Pink Floyd até música clássica", revelou Victor.
Fernando Fontenele considera que o som do vinil encaixa perfeitamente com o rock. “Me agrada a originalidade. O vinil tem um peso que não tem no som digital. A qualidade muda muito, até mesmo porque as bandas gravam primeiro uma guitarra, depois outro instrumento e não tem a mesma naturalidade, deixa o som muito artificial. O som do CD é muito mais limpo e isso é bom pra escutar alguns tipos de música, mas rock tem que ser sujo mesmo”, enfatizou.
Um ponto parece pacifico entre os admiradores do vinil. Enquanto o som digital, para ficar mais limpo, despreza as extremidades sonoras agudas e graves, privilegiando os sons médios, no vinil esses sons são bem definidos. “Os graves no vinil são melhores, isso todos sabem”, sintetiza Carlos Magno. O colecionador Davy Feitosa concorda. “ O som do vinil tem os graves mais expressivos do que CD ou MP3 e esse é um dos motivos para continuar apreciando os LP's”.
Os bolachões tem seu lugar em Fortaleza
O chiado dos LP's, devido o atrito da agulha com o disco, parece não incomodar os amantes dos bolachões em Fortaleza. A cidade oferece vários pontos para quem é fã dos LP's e a cada dia surgem mais. Em setembro passado Fortaleza ganhou mais um local para os apreciadores dos bolachas pretas. Foi inaugurado o Vinil Andaluz, na Rua Instituto do Ceará, próximo a faculdade de economia da Universidade Federal do Ceará. Em um ambiente agradável os amantes do vinil encontram mais uma opção para curtir os bolachões.
Já com uma certa tradição, o Bar do Vinil em Fortaleza, localizado na Parangaba, funciona às sextas e sábados e é um dos pontos de encontro dos amantes dos bolachões. A estudante de fisioterapia Luana Paula conheceu o lugar através de uma amiga. “Achei muito interessante, tem uma galera massa que frequenta. Você chega lá e pode escolher um disco do acervo para tocar, por isso rola de tudo. Vai do brega, Pinduca até Elvis Presley. Tem um salão onde você pode dançar e as mesas ficam num local rodeado por árvores e com luz ambiente. Bom que também pode esticar, o movimento começa a aumentar por volta de uma da madrugada e vai até de manhã”, lembrou com empolgação.
As noites de quinta-feira em Fortaleza, além das tradicionais caranguejadas, oferece uma opção alternativa para quem deseja escutar os bolachões. Acontece no Reggae Club o projeto "Na Ponta da Agulha", em que os DJ's Mr. Gazos (foto), Thiago Poeta e Bandit Dubwise, juntamente com convidados especiais, executam o reggae roots diretamente dos discos de vinil. "Esse projeto começou no Bar dos Cobras, perto do Dragão do Mar. Já estamos na batalha há três anos para isso dá certo. Hoje já é uma festa consolidada e o melhor é ver as pessoas curtindo",contou o DJ Mr. Gazos.

Um dos pioneiros da venda de discos em Fortaleza é o Bolacha Preta. Depois de trabalhar por anos no comércio formal, Mario Bolacha (foto) resolveu tirar seu sustento com a vendas dos disco de vinis. “Comecei minha coleção em 87, com os colegas aprendendo e conhecendo as bandas. Passa um disco aqui e outro ali e isso me despertou que dava para viver vendendo vinil. Pegava CD e trocava por LP's. Em 95, já tinha minha coleção e tentei uma loja no centro, mas não deu certo. Em 22 de maio 99 comecei o Bolacha Preta”, relembrou.
Outro ponto de encontro dos apreciadores de vinil é o Botija Discos, o proprietário Leontino falou sobre o público que costuma comprar os discos. “Temos pessoas de todas as idades, desde 15 anos até 60. Aqui vem grandes colecionadores, curiosos, garotos e também a velha guarda. Uns se apaixonam e viram colecionadores, outros veem que não é a praia deles”.


Visualizar Vinil em Fortaleza em um mapa maior


Vinil e a memória da música popular
Através das coleções particulares dos discos temos a preservação da memória da música popular, já que muitos bolachões não foram relançados em outras mídias. O baterista do Titãs, Charles Gavin, encabeça um projeto de restauração de álbuns valorosos da música brasileira que não estavam mais disponíveis e foram relançados em CD.

Atuando em Fortaleza temos o Projeto Semente das Artes, criado há 8 anos, que busca capacitar as pessoas, gerando educação e cidadania através de ações culturais. “Uma dessas ações é preservar a cultura brasileira e de carona a do mundo também. Temos mais de dois mil LP's de todos os estilos possíveis, além de fitas cassete e outras mídias. A ideia é que as pessoas escutem aqui mesmo, disponibilizamos o equipamento com amplificador e pick-up. Serve para pesquisa, estudo e também para o lazer”, explicou o coordenador Jofran Fontelles.

Inicialmente o acervo do projeto era utilizado para informar sobre os gêneros musicais que os alunos não conheciam. “Utilizávamos o arquivo para os alunos de música. Ele servia como referencial, por exemplo, os meninos que eram ligados só ao rock, começavam a entender o que era o baião com Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro e outros. A ideia agora é estar disponível para todos independente de classe, sexo ou idade. Servindo também como material de pesquisa para quem quer trabalhar a história da música”, complementou o coordenador.

As coleções particulares de vinil são de extrema importância para conservar a memória da música. Mario Bolacha, dona da Loja Bolacha Preta, cita alguns exemplos de discos que não foram relançados. “Deixa o trem partir do Ivan Lins, o primeiro disco da banda O Terço, os álbuns do Som Três, que é um jazz misturado com funk, são discos que você não vê. O mais raro que eu tenho hoje na loja é o primeiro do Alceu Valença, molhado de suor".

Do acervo do Projeto Semente das Artes, Jofran Fonteles aponta o disco Imunização Racional do Tim Maia como a maior raridade do local. "Foram produzidos na época mil LP's, temos um deles aqui no projeto. Na Europa este disco está avaliado em mil dólares".

Como cuidar adequadamente do seu disco

As coleções de discos de vinil exigem um cuidado redobrado para se manter em alto nível. Além das precauções para preservar as bolachas pretas, é necessário também um cuidado extremo com os aparelhos sonoros. “Para escutar meus discos eu uso um Receiver Gradiente modelo S95, um som da década de 80. Fica cada vez mais difícil encontrar agulha e peças de manutenção para venda. E hoje em dia poucos profissionais que consertam esses aparelhos”, disse o técnico em eletrônica Alexandre.

Com cerca de cinco mil discos disponíveis na Botija Discos, Leontino explica como deve ser o cuidado com a coleção. “Colocar os LP's numa estante em pé, um ao lado do outro e em local arejado. Limpar sempre que for ouvir, passar um paninho antes e depois de escutar. E de vez em quando lavar, se tiver muito sujo. Nunca coloque no sol, porque é claro que vai empenar”, risos.

Em relação aos cuidados com a parte gráfica dos álbuns, Jofran Fontelles alertou, “não risque a capa e não use durex. Se for restaurar tem que usar fita ou papel do mesmo material da capa que é o duplex e sempre por dentro, não usar por fora que tira a originalidade”.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

CULTURA POPULAR: Erudito x Popular




Inicialmente, tenhamos algumas idéias sobre o que vem a ser cultura.

O termo cultura está associado a todas as formas de existência e riqueza da humanidade. As realidades dos agrupamentos humanos e as características que os unem e diferenciam são complexas. A cultura expressa essas características. Assim, podemos dizer que cultura diz respeito à humanidade como um todo e, ao mesmo tempo, a cada um dos povos, nações, sociedades e grupos humanos, uma vez que eles estão sempre interagindo.

As riquezas das variadas formas de culturas e suas relações, dizem respeito a cada um de nós. Saber se há uma realidade cultural comum à nossa sociedade é algo importante, pois a cultura nos ajuda a pensar, decisivamente, sobre nossa própria realidade social.

O termo cultura está muito associado a estudo, educação e formação escolar. Outras vezes, quando se fala em cultura, automaticamente faz-se associação com manifestação artística, a exemplo do teatro, a música, a dança, a pintura, escultura etc. Também não se deve desprezar a idéia de que cultura na sociedade pós-moderna relaciona-se com os meios de comunicação de massa, tais como o rádio e a televisão. Ou então a ideia de cultura faz lembrar as festas e cerimônias tradicionais, lendas e crenças de um povo seu modo de vestir, comer e seu idioma.

Resumindo, duas idéias principais circundam o conceito de cultura. A primeira diz respeito a tudo aquilo que caracteriza a existência social de um povo ou nação, ou de grupos dentro de uma sociedade. A segunda ideia de cultura se refere mais especificamente a conhecimento, às crenças e às maneiras que elas existem na vida social.

A palavra cultura vem do latim e seu significado original está ligado às atividades agrícolas. Vem do verbo latino colere (cultivar).

Na antiguidade, pensadores romanos ampliaram esse significado para a educação aperfeiçoada das pessoas. Essa noção antiga continua em voga até hoje.

Partindo da idéia de cultura como uma educação refinada, acabou-se por transformá-la na descrição das formas dominantes de conhecimento já a partir do fim da idade média na Europa.

Pois eis que esse conhecimento aperfeiçoado, a educação refinada, passou a denominar-se de ERUDITO. A esse conhecimento erudito somente tinha acesso as classes sociais elevadas da Europa. Em oposição ao erudito, existia a idéia do conhecimento ao alcance da maior parte da população, tido como inferior e desprezível. Esse conhecimento popular passou a identificar-se e manifestar-se como cultura POPULAR. Nela, encontram-se os pensamentos e ações das populações mais pobres de uma sociedade.

Segundo o teórico Antônio Gramsci, ao lado da chamada cultura erudita, transmitida pela escola sob a chancela das instituições, existe a cultura criada pelo povo, com concepção de mundo e de vida paralela aos esquemas oficiais.

Assim, por cultura popular pode-se entender as manifestações diferentes da cultura dominante, que estão fora das instituições oficiais, existindo independentemente dessas, apesar de concomitante. Interessante que a própria elite cultural é quem desnvolve o conceito de cultura popular.

A IDÉIA DE ERUDITO E POPULAR RELACIONA-SE À OPOSIÇÃO ENTRE OS INTERESSES DAS CLASSES SOCIAIS. A propósito da divisão entre erudito e popular, o Professor Batista de Lima, membro da Academia Cearense de Letras, se manifesta. Ouça. http://www.baixa.la/arquivo/2070629

Ainda sobre o erudito e o popular, o poeta e Juiz de Direito Marcos da Silva, ilustra com o seguinte áudio. http://www.baixa.la/arquivo/3678314

Finalizando, escutemos uma manifestação de cultura tida por erudita, com a participação do Juiz de Direito e Poeta Marcos da Silva, declamando uma poesia sobre "livro", bem como uma manifestação dita popular, com o poeta potiguar Antônio Franciso, numa poesia que descreve o dia em que ele passou por uma cirurgia no coração devido a um enfarto. http://www.baixa.la/arquivo/6718298

Arte nossa para eles

A arte cearense está intrinsecamente relacionada ao turismo. Quer sejam figuras feitas em barro ou madeira, grandes esculturas ou mesmo pequenas garrafas cheias de uma areia colorida que mais parece tinta, o artesanato local é rico em cores, formas. e, principalmente, pessoas que dedicam vidas inteiras ao trabalho. Os objetos já são marcas registradas de Fortaleza e quem mora ou é daqui conhece, mas, segundo artesãos e comerciantes, quem compra e aprecia mesmo são pessoas de fora.

Excepcionalmente, em uma quarta-feira de manhã, alunos de um colégio público do Estado foram levados a Empresa Cearense de Turismo, EMCETUR, ou Centro de Turismo, como é mais conhecido, em uma aula de campo. O grupo consiste de alunos da 9ª série, entre 14 ou 15 anos, a maioria já com aquele ar blasé de quem não está interessado em ver rendeiras, beber cajuína ou olhar para arte que julgam sem graça. Uma das garotas, Fernanda   14, diz, “preferia estar na lan house perto de casa, vendo se alguém já postou algum vídeo do show do Bieber de ontem no Youtube”. Apenas uns poucos param para assistir e até fazer perguntas enquanto um artesão, pacientemente, em meio ao barulho, desenha com areia, instrumentos e uma minúcia incrível em um copo pequeno de vidro, traçando casas, dunas, o mar e um céu colorido, sem esquecer o nome da cidade, Fortaleza.

Sacada da frente da EMCETUR (Fonte: emcetur.com.br)
Os maiores compradores dos objetos são turistas, principalmente brasileiros de outros estados. De acordo com Antônio Rodrigues, o artesão mencionado, que trabalha diariamente no centro, poucas vezes aparece um cearense que para e compra, mas os turistas se encantam com as obras. O período de mais vendas é durante a alta estação turística, nos meses de Dezembro, Janeiro, Junho e Julho, ou quando um navio chega ao porto do Mucuripe, mas tem dias que nada é vendido. “O cearense mesmo prefere coisas de fora, importados, não dão muito valor ao que é local”, comentou Antônio. 

ARTE EM AREIA
O artesão já trabalha com silicogravura (que significa, literalmente, desenho em silício, o principal componente da areia e também matéria prima do vidro) há mais ou menos 30 anos. Aprendeu com o pai uma atividade que passa de pai para filho há gerações. “Que eu saiba,” disse ele, enquanto prosseguia o trabalho, “não existem cursos que ensinam a fazer isso, é uma atividade familiar mesmo. Meu pai sabia e minhas filhas sabem, mas não praticam, querem outras coisas”.
Falésia de Morro Branco, Ce. (fonte: Internet)

Segundo Antônio, a origem da prática é creditada a duas histórias, em uma, crianças da comunidade de Majorlândia, do município de Aracati, no litoral leste do Ceará, começaram a pegar a areia colorida das falésias e fazer desenhos com finas varas de bambu, competindo para ver quem fazia coisas mais bonitas, em outra versão, uma viúva da mesma praia, sofrendo de depressão com a morte do marido, passou a fazer arte com areia para escapar da solidão.

A areia das falésias cearenses tem, naturalmente, 13 tonalidades terrosas. Finamente peneirada até se tornar um pó leve, a areia colorida que vemos hoje, azuis, roxos, amarelos e outras cores vibrantes, é obtida das mesmas falésias e tingida com anis e pó xadrez, usados para colorir tecidos e chãos, mas até os tons que antes podiam ser encontrados nas dunas, atualmente tem que ser obtidos através de tingimento porque a obtenção da areia em dégradé, feita em buracos profundos, foi proibida quando muitas falésias começaram a desmoronar por causa da extração feita indevidamente. 
A EMCETUR
Antônio faz parte de uma associação de 30 artesãos que foi formada em 1973 no bairro Cristo Redentor, em Fortaleza. Os membros do Centro Artesanal São Vicente de Paula expõem suas artes, que inclui trabalhos em renda, esculturas, crochê, silicogravura, entalhes em madeira, entre outros, na loja 03 da ala central da EMCETUR, que foi, outrora, a cadeia pública de Fortaleza. O centro já existe há trinta anos e foi recentemente reformado pelo Governo do Estado, 104 lojas se dividem entre 3 pavilhões, no andar de cima, um museu, que nem os próprios lojistas sabem se funciona ou não, conta com objetos de arte representativos da cultura local que estão mais ou menos esquecidos (e escondidos) para quem não tem um interesse ativo em procurá-los - a propósito, o museu está em funcionamento, aberto de Segunda a Sábado.
Interior da Centro (fonte: emcetur)

Para Ana Renê, Diretora Financeira da associação, “o grande problema daqui é que o governo não dá muito espaço pro Centro. A prefeitura está o tempo todo falando do Mercado Central, que é um modelo, moderno e ponto de referência do turismo de Fortaleza, mas o centro não tem a mesma publicidade do mercado ou da feirinha da Beira-Mar, muita gente não sabe nem que existe”.

Por ser no prédio da Cadeia Pública de Fortaleza, tombado pelo patrimônio histórico, qualquer ação proposta pelos lojistas para mudança no exterior para revitalização do local tem que ser licitada e demora muito para ser feita. Reclamações relativas à administração do local não faltam. Mas os lojistas e artesãos todos concordam que, para atrair mais turistas e compradores e manter essas artes singulares, o principal é divulgar mais lugares como o Centro de Turismo e que a população cearense lembre que pode encontrar coisas incríveis nos lugares mais comuns e aprenda a dar mais valor ao artesanato local.

Praticada em academias, a capoeira hoje também é esporte de elite







Criada no começo do século XVI, por escravos, na época em que o Brasil ainda era colônia de Portugal, a capoeira sempre foi considerada uma arte marginal. Mas, hoje, essa idéia mudou drasticamente, em todo o país. Agora, a arte-luta é praticada nas melhores academias, localizadas nos principais Bairros de Fortaleza, por pessoas de classe média alta.

Alexsandro Nascimento, professor de capoeira há seis anos, trabalha com o esporte em dois projetos, o ABC da Serrinha e do Mondubim, e no shopping Maraponga Mart Moda defendeu que “a capoeira não é mais voltada apenas para as classes baixas. Houve uma evolução enorme e hoje, com um pouco mais de poder aquisitivo dentro da capoeira, fica melhor de ensinar”.

Para o professor o crescimento da luta também há uma explicação. “A mídia influenciou muito. Há alguns anos, a novela Malhação trouxe como um dos temas a capoeira. E isso acabou alavancando e profissionalizou o esporte. Hoje temos professores e vários cursos para a habilitação necessária para lecionar”.

Dando aulas para pessoas de todas as classes, o mestre diz que a diferença inexiste. “Dou aulas em favelas e em um shopping (Maraponga Mart Moda) e o público acaba aprendendo bem, sem distinção de classes. E isso só enobrece o nosso trabalho”.



O estudante de jornalismo e praticante de capoeira há nove anos, Jefferson Passos, acredita que essas mudanças na classe que pratica o esporte se deve ao fato de que a capoeira está sendo praticada dentro das academias. “Dessa forma fica mais caro participar de uma roda de capoeira e com isso o público também é diferente”.

Para o estudante essa arte-luta praticada nas academias faz com que a essência do esporte seja perdida. “Capoeira nasceu nas classes baixas, na periferia, por isso eu acho que para chegar até as outras classes é preciso que seja praticada em todos os cantos e não apenas em um”, acrescentou.

Passos acredita que as academias estão descaracterizando a capoeira, pois a arte-luta também é uma forma de cultura expressada pelo povo. “Para mim o correto seria a criação de escolas de capoeira, como é feito na Bahia”.

Além disso, ele destacou que a maioria da capoeira de rua que se encontra em Fortaleza é praticada no calçadão da Avenida Beira Mar, local conhecido pelo grande número de turistas e também por ser um local de lazer de muitos cearenses. “Esse é um dos locais com os melhores capoeiristas do Ceará. O intuito é chamar a atenção dos turistas, isso contribui bastante para o crescimento do turismo”.

Histórico

A passagem dos campos de mata aberta para as salas das academias não foi a única modificação sofrida pela arte. Além de lugar fixo para o treinamento, foram implantados também horários para tal. Foi padronizado um uniforme que consiste em calça branca, representando as calças de saco que os negros usavam para a lida, e um cordel que deve ser amarrada no lado direito cintura da calça.

Nos tempos modernos, os capoeiristas são graduados de acordo com os seus conhecimentos e com o tempo de prática na capoeira. Cada graduação é representada por uma cor no cordel, que é amarrado na calça do capoeirista do lado direito.

Em cada grupo designa um conjunto de cores que irá representar as graduações. As pessoas entram para as aulas de capoeira, em seguida, começam um treinamento. Nesse período inicial eles são chamados de "pagãos", ou seja, eles não foram ainda batizados.

O batizado de capoeira representa o momento em que os indivíduos recebem a sua primeira graduação pelo grupo. Nesse dia eles deixam de ser pagãos, pois durante esse evento é costume entre os grupos dar um apelido ao capoeirista. O apelido é uma tradição desde os tempos que a capoeira era considerada uma arte marginal e os capoeiristas eram obrigados a usar codinomes para não serem identificados, mediante isto, serem presos pela polícia.

Roda de Capoeira realizada no calçadão da Avenida Beira Mar, em Fortaleza:



Repórteres: Thiago Rocha e João Romero

A popularidade das miçangas.

O Mercado Central de Fortaleza possui 68 quiosques e mais de 500 boxes. Todos os produtos são artesanais e típicos da cultura nordestina. Produtos como colares, brincos e pulseiras – também conhecidos como miçangas -, são alguns dos acessórios mais procurados principalmente pelos turistas sejam eles de outra cidade ou de outro país. A matéria prima principal é a semente de açaí e o coco, ambos vindos de Manaus a pedido de artesões que fornecem o produto final aos lojistas do Mercado.
O box da vendedora Eliane Vicente é o mais completo dos que trabalham com miçangas. Toda a estrutura é coberta por colares de variadas cores e bolsas de madeira trabalhadas manualmente e, no chão logo em frente, há caixotes cheios de pulseiras e outros produtos. Seu box é um dos que exporta. “O pessoal que vem de fora (estrangeiros) compra aqui, gosta, pede o telefone e a gente dá. Daí eles ligam e pede pra gente mandar pra eles” diz enquanto mostra alguns dos colares coloridos feitos de semente.
Apesar de haver a exportação, somente alguns boxes o fazem. A Associação dos Lojistas do Mercado Central (ALMEC) não possui dados sobre as exportações feitas. “O Mercado não possui um setor de exportação. Os lojistas que exportam podem ter esse dados, mas nós não trabalhamos com isso” diz o administrador e supervisor do Mercado, Fernando (Sobrenome).
Em um outro box, logo ao lado do de Eliane, a vendedora Francisca Jocicleide da Silva trabalha também com miçangas, mas com a matéria prima diferente. “Esse aqui é o capim dourado. Vem de Tocantins”, fala mexendo nas pulseiras douradas. Os produtos feitos de capim dourado são mais caros. Dizem que esse tipo de capim dar apenas uma vez ao ano e, quando vem para o Ceará, o produto já está finalizado. Além do valor maior do que os demais produtos, esse tipo de produto não é muito procurado. “Os estrangeiros querem só se for de semente de açaí ou coco. Tem um menino aqui que trabalha com uns potes de coco que não tem nada, mas vende” declara mostrando um dos potes que realmente não é muita coisa. Apenas metade de um coco que foi trabalhado. “Tá vendo essas bolsas de tecido?” Aponta para algumas bolsas penduradas sobre o box. “Teve uma estrangeira que comprou porque a dona do box estava aqui, insistiu muito e ainda baixou o preço. Se não fosse isso, a mulher não tinha comprado” completa.


Outras miçangas feitas com matéria prima diferente são também encontradas no box de Vanderlene Lima, alguns boxes mais a frente. “Esse aqui é o raminho, um tipo de barbante” e aponta para alguns colares. O barbante é encontrado em Fortaleza e quando finalizado é fornecido diretamente pelas artesãs que vão até o Mercado deixar o artigo. “Eu tinha mais, mas já foram vendidos” completa.

São 200 anos de história para o Mercado Central e, apesar da última reforma ter acontecido há onze anos o lugar ainda retrata a cultura popular da cidade e oferece parte dessa cultura aos visitantes que podem encontrar artigos em couro, rendas e bordados, peças de roupa, mesa e banho, rendas de bilro, camisetas, lembrancinhas, bijuterias, jóias em ouro e artigos para decoração. O Mercado também esteve presente no salão do turismo em São Paulo no mês de julho de 2011 com apoio da SETFOR e da ALMEC.








Mercado Central de Fortaleza

Avenida Alberto Nepomuceno, 199 – Centro

CEP 60055 – 000 Fortaleza/CE

Telefone: +55 85 3454-8586